Deserto e Som

         Por  Ana Clara Teixeira

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Novelta no Veraneio Fora do Eixo

           A ideia de uma banda stoner em Feira de Santana parecia não envolver qualquer tipo de particularidade em relação à ideia de uma banda stoner em outra parte do globo. Por mais que a competência seja um traço geral facilmente identificável, a falta de inovação é a regra em praticamente tudo o que apareceu no subgênero a partir da década de 2000: é comum muitos álbuns agradarem ao ouvinte na perspectiva do mais-do-mesmo, mas não possuírem coisa alguma para fazê-los dignos de maior admiração ou de uma apreciação duradoura. Ainda mais raro que achar um exemplo de originalidade, diga-se, é encontrar um caso de exploração de toda a potência sensorial de que o stoner rock dispõe, e eis aqui o ponto arriscado onde surge um acontecimento feirense chamado Novelta.

            Conversar com o frontman e guitarrista Wendell Fernandes, também responsável pelas letras, leva-nos a descobrir a ligação possível – e até óbvia – entre uma cidade do semi-árido baiano e um estilo musical nascido basicamente no deserto de Mojave, Califórnia. “Quase tudo o que escrevemos até aqui remete ao calor, à seca, bicho morrendo de sede, solo seco e por aí vai”, explica, destacando que foi um choque retornar da Europa, após viver seis anos divididos entre Espanha e Portugal, e rever esta paisagem tão empoeirada e quente. Acostumado a utilizar a língua inglesa nas composições de metal feitas para projetos anteriores, a proposta de escrever em português veio rapidamente acompanhada do plano de criar uma derivação que se concentre na temática, uma espécie de “agreste-rock” cujo conceito passará, nas palavras do músico, por “esse pé rachado do barro seco e vermelho da estrada”.

            Estranhamente, a primeira música divulgada pouco lembra o stoner, muito semelhante que é a um rock moderno na linha pós-grunge. “O Golpe” é a canção que mais se distingue no repertório porque lembra o Foo Fighters, apesar dos vocais mais agressivos e do refrão mais sujo. Na gravação incompleta de Santa Poeira, contudo, já fica explicitada uma conformidade com aqueles momentos climaticamente psicodélicos e típicos do álbum Welcome to the Sky Valley, do Kyuss. Podemos classificá-la, aliás, como uma descendente da faixa “Space Cadet”, sendo esta também pertencente à família da viajante “Planet Caravan”, do Black Sabbath. Para completar, os versos brotam todos de uma aridez quase sentida por meio da audição, pois se juntam ao que há de sugestivo no som desértico calcado em certo vazio arremessado estrategicamente no barulho.

            O público não deve interpretar como gratuitas as eventuais saídas dessa sonoridade principal. A experiência dos músicos com outros estilos faz com que a Novelta naturalmente não se apegue em excesso aos clichês de um único estilo: o guitarrista José Cordeiro esteve na Casa de Vento, grupo indie bastante ativo na cidade entre 2010 e 2011, e tem entre suas influências patentes a carreira-solo de John Frusciante, o Radiohead, o Black Rebel Motorcycle Club e o experimentalismo de um The Mars Volta; o baixista Filipe Figueiredo vindo da mesma banda, somente agora está mesclando o stoner a suas referências do indie rock; e o baterista Luciano Cotrim, que gosta de unir o grunge a inspirações metálicas, foi companheiro de Wendell na Erasy, uma banda de doom metal.

            “É uma banda nova de puta velha”, define sem floreios o vocalista para logo depois enumerar suas próprias fontes, desde o evidente Queens of the Stone Age até os portugueses do Miss Lava, incluindo o Mondo Generator, Mark Lanegan, Dozer, Cabron, Truckfighters, Motörhead e Eagles of Death Metal. “Ouço bastante hard rock e gostaria de trazê-lo de modo melhor para uma banda. Para mim, o stoner é o primo pobre do hard rock, como prova “Fatso Forgotso” (música do Kyuss). Eagles of Death Metal é isso, talvez a que traga mais hard rock no som e que nem sei se chega a ser stoner”. De fato, esse parentesco incontestável é motivo pelo qual conhecemos tantas bandas atuais de hard rock que, quando desejam soar setentistas, soam também um tanto stoner, caso de Graveyard, Siena Root, Necromandus e tudo o que chegue a soar próximo de um Pentagram 70’s.

            É importante que o público acompanhe, de agora em diante, a forma como o quarteto lidará com a divulgação do trabalho e as possibilidades de criação artística abrangíveis nesse processo. Por se tratar de uma formação recente – o primeiro show ocorreu apenas no dia 19 de janeiro, no Veraneio Fora do Eixo, inaugurando a participação em eventos promovidos pelo Feira Coletivo Cultural –, a maior parte de seu “projeto agreste-rock” ainda aguarda ocasiões de ser posta em prática. O trunfo de pensar um direcionamento que possamos ouvir, ver e sentir em sua identificação com nosso ambiente, por si só, já confere méritos a um grupo despretensioso o suficiente para se assumir em redes sociais como “outra daquelas bandas de rock”.

         Ademais, da maneira exata como existe, é certo que a Novelta não poderia existir em nenhum outro lugar: é stoner, sim, e é de Feira.

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