50 anos depois do golpe de 1964: uma breve posição sobre um grande evento da história deste país

 

FEIRA_E_GOLPE

Ser membro da consciência humana é situar-se com relação a seu passado; uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e padrões da sociedade.”  *

Deveríamos nos posicionar sobre o grande evento que foi a dita “revolução” de 1964? Eventos passados são de importância para nós? Quem é o “Feira Coletivo Cultural” no jogo de forças das disputas de memória? Essa é um dos questionamentos que nos inquieta no dia de hoje. Pois somos nós filhos, herdeiros e sujeitos de disputas nas quais podemos e devemos tomar posição. No caso do dia 31 de março/1° de abril de 1964, nós estamos do lado dos indivíduos e grupos que resistiram e que se posicionaram contrários ao Golpe e ao governo ditatorial, e definitivamente contra aqueles e aquelas que na nossa atualidade reproduzem as infundáveis justificativas positivadas do evento e de um regime de exceção. Estes silenciam sofrimentos, torturas, violências cometidas através de um Estado dirigido por grupos que não admitiam oposições e tampouco avanços das lutas populares e dos trabalhadores.

Hoje não comemoramos, mas rememoramos aqueles que tomaram o Estado, seqüestraram a democracia e construíram um péssimo regime político neste país, mas sem esquecer outras ditaduras as quais nosso país foi submetido, mesmo aquelas que não foram chamadas por este nome. Hoje é um dia importante para revelarmos nossos lugares e nossas conquistas, e lembrar que estamos ligados a um passado construído por centenas de lutas que são silenciadas em nome de grandes mitos em forma “heróis”.

A memória é um objeto importante das lutas políticas, ela gera comportamentos, subjetividades, ela define caminhos e referências. Por que valorizamos pouco determinadas situações de nossa memória coletiva? Por que temos a inferiorização de determinados conhecimentos? Deveríamos nos perguntar o porquê de tudo isso e procurar repostas. Por que tantas datas significativas e um crescente silenciamento de outros tantos processos? Quem determina o que é admirável em nosso passado? Como é feita essa seleção?

Em poucas palavras nossa memória é uma seleção, motivada por lutas, rapinas. Resultante também de nossos conflitos e hegemonizadas por aparelhos que são dirigidos por grupos de interesse exclusivo que geram submissão. Nos do FCC, diariamente nos organizamos para disputar possibilidades de uma vida melhor para todos, portanto nos encontramos ligados a tradições de lutas, que por mais que sejam diferentes se assemelham e se respeitam na sua história e no merecimento de uma memória que não os exclua. Em contrapartida é necessário também relembramos opressores e opressoras, em nome de podermos nos situar entre aqueles e aquelas que lutam por liberdades e em contraposição a aqueles e aquelas que estão do lado oposto destas lutas. Se na justiça objetiva não pudermos responsabilizar os que merecem, minimamente denunciamos o seu merecimento. E hoje não apenas saudamos os resistentes e homenageamos todos e todas que se dedicaram a esta finalidade como procuramos os subsídios para denunciamos os impiedosos opressores de nosso país e os fazê-los responsáveis por suas opções.

* Hobsbawn, Eric. O sentido do passado.Sobre História. São Paulo: Cia das letras, 1998

Por Diego Carvalho

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