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Dos limites das estruturas dos “conselhos” a sanha das lutas políticas.

“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança.”

Chico Buarque

O Conselho Municipal de Cultura se apresenta como um órgão que propõe, em todos os seus limites, apenas aconselhar, sendo que os conselhos podem repercutir nas ações da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer, respectivamente no Departamento de Cultura. Portanto, na sua função não deliberativa ele pode exercer pressão sobre decisões, denunciar ações equivocadas e aproveitar maiores oportunidades de construir junto a seus representados algum tipo de relação de luta e de enfrentamento, mas nunca definir as ações da Secretaria.

Em muitos municípios se criou expectativa por parte de alguns sujeitos de um tipo de aproximação de gestores públicos municipais que gerariam oportunidades pessoais de captação de recursos e influência pessoal sobre a direção dos mesmos. Pensado por nós de forma não pessoal e sim coletiva, podemos rever as formas organizativas de nosso sistema político e mesmo eleitoral que está presente nestes conselhos.

Não vivemos uma democracia direta, seria mais fácil falar em um modelo de organização política representativa baseada em uma não identificação do representante com o representado. Desta forma se constituiu a prática, o representante não dá satisfação a sua base, há uma construção de autonomia deste em relação ao todo tendo um prejuízo que é a não representação efetiva/direta, esta transformada em algo deliberadamente autoritário, autoridade que deve ser renovada de tempos em tempos apenas pela legitimação da eleição.

A ocupação de cadeiras do Conselho Municipal de Cultura por membros do “Feira Coletivo Cultural” propõe uma forma distinta de ação política. Nossa presença no Fórum Municipal de Cultura se mostrou a partir de uma ação coletiva que agregou mais grupos culturais no movimento “Mobiliza Cultura em Feira de Santana”.  Não participamos de um fórum para representarmos paixões pessoais de forma individual, mas aquilo se tornou identidade coletiva.

Desde os primórdios da fundação de nosso grupo que exibimos nossa perspectiva de não sermos uma produtora cultural, mas um coletivo, distinguindo a opção de promotor de eventos para de lutadores pela cultura, sujeitos que optaram não por uma profissão meramente, mas uma opção de forma de ver e viver o mundo que privilegiasse a luta, a ação coletiva, a dedicação e o enfrentamento das dificuldades que nos cercam. Na sua autoafirmação o “Feira Coletivo” tem cores, tem diversidade, tem luta, tem grupos, tem identidade e decisões coletivas.

Apesar da dúvida que pode causar em alguns espíritos ansiosos sobre o que seria este grupo que alçou cadeiras neste Conselho, entendemos a sua importância e principalmente seus limites óbvios e mesmo sua capacidade de submeter e seduzir certas cabeças que se formam na vontade pessoal, nós nos precavemos contra o individualismo cotidianamente. Nossa breve história nasce com a perspectiva coletiva, com as artes e expressões integradas, não há nada de novo, apenas a ampliação de uma mobilização política, entendida como algo presente a qualquer momento e lugar.

Podemos nos apropriar, com todo respeito, daquilo que os zapatistas dizem sobre si, “queremos tudo para todos, para nós nada”. Observamos que nossa prática foi esta desde o início e deve prevalecer e se ampliar na atual conjuntura, queremos apenas tentar assegurar pela luta a ampliação do acesso, o respeito, o amadurecimento de nossas formas organizativas e o enfrentamento das estruturas estatais que dificultam a vida da maioria das pessoas.

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O pragmatismo excludente do governo municipal sobre a cultura.

O caráter da construção das ações politicas sobre cultura nos últimos anos sofreram algumas alterações que podem ser atribuídas a diversos fatores, dentre uma concessão dos governos, ou do governo do PT aos movimentos sociais, o que pode ou não se reverter em uma estratégia de manutenção do poder através dos mecanismos da participação popular a partir de fóruns decisórios ou meramente indicativos, consultivos.

Diante de tais caminhos definidos pelas lutas sociais no país, alguns grupos políticos têm sérias dificuldades em adaptarem-se as orientações institucionalizadas. Em Feira de Santana, nos últimos anos temos atrasos muito significativos para rumos políticos importantes da cidade, como a não construção nos últimos 12 anos deum Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de forma participativa. Sinteticamente, como consequência, temos uma cidade sem planejamento ou que pouquíssimos decidem como elas se desenvolvem e todos os prejuízos sociais causados por isso, por outro lado a não destinação de alguns recursos federais que estão atrelados à adaptação dos municípios as orientação do Ministério das Cidades de construção de seus fóruns participativos.

Essas orientações de constituição de fóruns se generalizaram para vários aspectos da organização política do país, logo foram determinadas para a cultura, criando o sistema nacional, estadual e os municipais de cultura. A não construção dos fóruns nas estancia menores tem como consequência as mesmas perdas politicas, econômicas e outras, que definem outros aspectos da organização da instituição públicas do Estado.

Em Feira processo que solidificam o Conselho de Cultura, eleição de representantes, e o Fórum Municipal, tem caráter corriqueiro, sem preparação e com divulgação frágil, ou pouco abrangente quando posto o tamanho do município. Além de questões de ordem da organização e publicização dos fóruns, a forma pragmática, que parece ter por finalidade apenas fazer acontecer, sem critérios de construção que considerem a qualidade e quantidade de participantes, gera exclusão de parcelas importantes da comunidade feirense.

A primeira pergunta relevante seria qual o conceito de cultura que a Secretaria Municipal tem. No chamado público para participação no 2º Fórum Municipal de Cultura 2013 e a eleição do Conselho Municipal de Cultura, gestão 2013 – 2015, convocam artistas independentes e Instituições Artísticas, sem revelar o que seria isso e evidentemente deixando aparecer quem a gestão considera protagonista da cultura. São produtores de cultura? somente artistas e instituições artísticas? Seríamos todos os outros apenas consumidores

A cultura é expressão, modos de viver e ver o mundo, práticas, isso não se reserva apenas há um grupo seleto, mas ao conjunto das comunidades sem exceção, portanto é preciso que o conjunto dela protagonize esses fóruns como principal interessada, ou que ao menos não seja excluída pelo órgão público responsável a primeira vista.

Uma visão que gera uma prática excludente, pois “cidadania”, termo que custou caro há muitos defensores da forma moderna de se organizar, não tem valor, apenas para alguns sujeitos e grupos seletos.  Essa visão, portanto, é cultural e gera desde tempos anteriores um comportamento político excludente e pragmático, ecos de uma tradição política que se atarda a mudar um pouco que seja.

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Carta Aberta – Aos artistas, fazedores de cultura e interessados na Cultura da Cidade de Feira de Santana

Há muito tempo que se discute e se tenta mudar o projeto político da cultura em Feira de Santana, para que seja desenvolvida uma cena cultural em benefício de artistas, produtores culturais, fazedores de cultura. E, é claro, que beneficie e contemple o cidadão feirense, garantindo acesso à diversidade cultural produzida em Feira de Santana e em todo o Brasil. Apesar dos esforços, tanto o governo anterior quanto o atual têm a mesma postura: evitar a participação da sociedade civil nas decisões e na construção de políticas públicas que realmente venham dar uma nova cara para nossa cultura.

 No início de 2013, novo secretário de cultura, Jailton Batista, foi recebido com certa expectativa para a gestão da cultura na cidade. Mas, desde então, o secretário tem agido de forma autoritária, iniciando vários trabalhos sem a consulta popular merecida. A construção do Sistema Municipal de Cultura (SMC), as eleições do Conselho de Cultura e o Fórum Municipal de Cultura são provas desse descompromisso para com a sociedade civil e os agentes culturais de nossa cidade.

 20 de Junho foi determinado pelo secretário como dia para se realizar duas atividades: Fórum Municipal de Cultura e novas eleições para o Conselho Municipal de Cultura. Estas duas atividades supracitadas estão sendo feitas de acordo com o projeto político pensado para Feira de Santana: determinar as mudanças e os gastos do orçamento para cultura sem a participação da sociedade.

O Fórum Municipal de Cultura, que deve ser o principal momento para participação da sociedade civil, momento de levar as insatisfações e pôr em discussão pautas importantes – como o Sistema Nacional de Cultura (SNC), SMC, e diversas outras políticas públicas para cultura de nossa cidade – foi articulado sem a comunicação devida, pois há uma nota publicada apenas no site oficial da Prefeitura de Feira de Santana.

 Para nós, este Fórum tem o objetivo pragmático de cumprir o acordo para que a cidade seja integrada ao SNC e, tanto a falta de divulgação como a data escolhida para tal atividade, provam que não há interesse na participação dos artistas e demais cidadãos neste espaço para debate amplo com a gestão municipal.

 No processo de construção do SMC são necessárias várias etapas, que vão desde a assinatura da adesão (assinada em Fev/2013) a discussões amplas, para elaboração dos eixos que norteiam este Sistema. Objetivando a discussão, é necessário se criar um calendário: com metas a serem cumpridas; reuniões de GT´s específicos; reuniões e demandas das câmaras temáticas; realização de encontros com agentes de nossa cultura e com Conferências e Fóruns. Mas, para isso, é necessário que haja uma mobilização desses agentes culturais, artistas e, sempre, do cidadão que irá desfrutar do resultado dessas políticas.

 Nesse sentido, o primeiro passo é que sejamos comunicados das propostas governamentais e convocados a participar, ao mesmo tempo em que devemos cobrar da secretaria de cultura uma gestão pública e, por isso mesmo, transparente, da cultura de Feira de Santana.

Feira Coletivo Cultural

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Deserto e Som

         Por  Ana Clara Teixeira

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Novelta no Veraneio Fora do Eixo

           A ideia de uma banda stoner em Feira de Santana parecia não envolver qualquer tipo de particularidade em relação à ideia de uma banda stoner em outra parte do globo. Por mais que a competência seja um traço geral facilmente identificável, a falta de inovação é a regra em praticamente tudo o que apareceu no subgênero a partir da década de 2000: é comum muitos álbuns agradarem ao ouvinte na perspectiva do mais-do-mesmo, mas não possuírem coisa alguma para fazê-los dignos de maior admiração ou de uma apreciação duradoura. Ainda mais raro que achar um exemplo de originalidade, diga-se, é encontrar um caso de exploração de toda a potência sensorial de que o stoner rock dispõe, e eis aqui o ponto arriscado onde surge um acontecimento feirense chamado Novelta.

            Conversar com o frontman e guitarrista Wendell Fernandes, também responsável pelas letras, leva-nos a descobrir a ligação possível – e até óbvia – entre uma cidade do semi-árido baiano e um estilo musical nascido basicamente no deserto de Mojave, Califórnia. “Quase tudo o que escrevemos até aqui remete ao calor, à seca, bicho morrendo de sede, solo seco e por aí vai”, explica, destacando que foi um choque retornar da Europa, após viver seis anos divididos entre Espanha e Portugal, e rever esta paisagem tão empoeirada e quente. Acostumado a utilizar a língua inglesa nas composições de metal feitas para projetos anteriores, a proposta de escrever em português veio rapidamente acompanhada do plano de criar uma derivação que se concentre na temática, uma espécie de “agreste-rock” cujo conceito passará, nas palavras do músico, por “esse pé rachado do barro seco e vermelho da estrada”.

            Estranhamente, a primeira música divulgada pouco lembra o stoner, muito semelhante que é a um rock moderno na linha pós-grunge. “O Golpe” é a canção que mais se distingue no repertório porque lembra o Foo Fighters, apesar dos vocais mais agressivos e do refrão mais sujo. Na gravação incompleta de Santa Poeira, contudo, já fica explicitada uma conformidade com aqueles momentos climaticamente psicodélicos e típicos do álbum Welcome to the Sky Valley, do Kyuss. Podemos classificá-la, aliás, como uma descendente da faixa “Space Cadet”, sendo esta também pertencente à família da viajante “Planet Caravan”, do Black Sabbath. Para completar, os versos brotam todos de uma aridez quase sentida por meio da audição, pois se juntam ao que há de sugestivo no som desértico calcado em certo vazio arremessado estrategicamente no barulho.

            O público não deve interpretar como gratuitas as eventuais saídas dessa sonoridade principal. A experiência dos músicos com outros estilos faz com que a Novelta naturalmente não se apegue em excesso aos clichês de um único estilo: o guitarrista José Cordeiro esteve na Casa de Vento, grupo indie bastante ativo na cidade entre 2010 e 2011, e tem entre suas influências patentes a carreira-solo de John Frusciante, o Radiohead, o Black Rebel Motorcycle Club e o experimentalismo de um The Mars Volta; o baixista Filipe Figueiredo vindo da mesma banda, somente agora está mesclando o stoner a suas referências do indie rock; e o baterista Luciano Cotrim, que gosta de unir o grunge a inspirações metálicas, foi companheiro de Wendell na Erasy, uma banda de doom metal.

            “É uma banda nova de puta velha”, define sem floreios o vocalista para logo depois enumerar suas próprias fontes, desde o evidente Queens of the Stone Age até os portugueses do Miss Lava, incluindo o Mondo Generator, Mark Lanegan, Dozer, Cabron, Truckfighters, Motörhead e Eagles of Death Metal. “Ouço bastante hard rock e gostaria de trazê-lo de modo melhor para uma banda. Para mim, o stoner é o primo pobre do hard rock, como prova “Fatso Forgotso” (música do Kyuss). Eagles of Death Metal é isso, talvez a que traga mais hard rock no som e que nem sei se chega a ser stoner”. De fato, esse parentesco incontestável é motivo pelo qual conhecemos tantas bandas atuais de hard rock que, quando desejam soar setentistas, soam também um tanto stoner, caso de Graveyard, Siena Root, Necromandus e tudo o que chegue a soar próximo de um Pentagram 70’s.

            É importante que o público acompanhe, de agora em diante, a forma como o quarteto lidará com a divulgação do trabalho e as possibilidades de criação artística abrangíveis nesse processo. Por se tratar de uma formação recente – o primeiro show ocorreu apenas no dia 19 de janeiro, no Veraneio Fora do Eixo, inaugurando a participação em eventos promovidos pelo Feira Coletivo Cultural –, a maior parte de seu “projeto agreste-rock” ainda aguarda ocasiões de ser posta em prática. O trunfo de pensar um direcionamento que possamos ouvir, ver e sentir em sua identificação com nosso ambiente, por si só, já confere méritos a um grupo despretensioso o suficiente para se assumir em redes sociais como “outra daquelas bandas de rock”.

         Ademais, da maneira exata como existe, é certo que a Novelta não poderia existir em nenhum outro lugar: é stoner, sim, e é de Feira.

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Nesta sexta acontece a 4ª edição do Metalized Nights

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Dia de semana em Feira também é dia de Metal. Nesta sexta-feira, 15/03, acontecerá a quarta edição do Metalized Nights no Offsina Music Lounge. Todo headbanger sabe que cena forte é cena unida, e o Metalized Nights, trazendo nesta edição o trash oitentista da Flagelador, pela primeira vez em Feira, e mais dois ícones do metal baiano, Martyrdom e Metalwar, vem fortalecer o cenário metal na cidade unindo este público em um show inesquecível.

Em um segmento distinto das demais bandas locais, e focando no estilo Power Metal, a feirense Metalwar se inspira em bandas como Judas Priest, Iron Maiden, Rainbow, Riot, entre outras, levando o metal feirense para os palcos de toda a Bahia há mais de 8 anos. Com um repertório nervoso, eles vão agitar a noite de sexta com seu som tradicional, sem teclados, sem baladas e alucinado.

Outra feirense a se apresenta no show será a Martyrdom, que faz questão de mostrar que tem um som livre de modismos e de influências musicais tendenciosas, como eles mesmos dizem. Com suas composições mórbidas e sombrias, a banda vai trazer o melhor do Death/Doom para as almas macabras que vagam pela madrugada.

E o mais esperado da noite é o som absurdamente insano da Flagelador, com seu trash oitentista trabalhado em mais de 10 anos de estrada. A banda vai trazer em seu set list sucessos como Total Danação, Expresso para o Inferno (faixas do split mais recente – Guerreiros do Álcool), Obcecados por Sangue, Cruzada ao lado de Satã, entre outros.

Há uma verdadeira legião de guerreiros dispostos a manter acesa a chama do metal. Se você é um deles, não vai perder este show.

 

O quê: Metalized Nights 4

Quando: 15/03/13

Horário: 20h

Onde: Offsina Music Lounge – Rua Dr. Sabino Silva, 96 – Centro, Feira de Santana/BA (Próximo ao Colégio Castro Alves)

Quanto: R$ 15,00 (no local)

 

Bandas:

Flagelador (RJ) – Myspace | Facebook

Martyrdom (FSA) – Myspace | Blog

Metalwar (FSA) – Blog | Facebook  

 

 

Confirme sua presença no evento:

www.facebook.com/events/404036306359452/?fref=ts

 

 

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Socorro, meu Deus – uma noite inesquecível

No último dia 15 aconteceu a festa de lançamento do EP da banda Escola Pública. O nome do evento – Socorro, Meu Deus – foi o mesmo do primeiro videoclipe da banda feito para uma das melhores músicas do disco recém-lançado, mas, ao ouvir o trabalho, você com certeza vai encontrar mais um monte de canções que não irão sair de sua cabeça.

O evento foi realizado pelo Feira Coletivo Cultural, com o completo envolvimento das duas bandas locais. Isso mesmo, duas bandas locais, porque apesar da maior parte dos músicos da Escola Pública viver em Cachoeira, Ícaro, um dos integrantes, é de Feira de Santana e Pedro Patrocínio viveu muitos anos aqui e já tem uma história como guitarrista de outra banda da cidade, a Calafrio. Sendo assim, a Escola Pública também é de casa.  As duas bandas se envolveram na construção do evento e na sua divulgação, o que foi crucial para que ele fosse um grande sucesso.

Quem compareceu ao Botekim no ultimo sábado para conferir os shows da Escola Pública, Irmão Carlos e o Catado e Uyatã Rayra e a Ira de Rá, sem dúvida saiu de lá satisfeito com as excelentes apresentações e compartilhou a noite com um público bem bacana que lotou  a principal casa de show da cidade na atualidade, e que tem aberto espaço importante para a música independente de Feira de Santana.

Irmão Carlos e o Catado

A noite começou muito bem com o show de Irmão Carlos e o Catado, banda excelente de Salvador com um show divertido e cheio de surpresas, calcado na Black Music americana, mas com influências diversas da música nacional. As letras de Irmão Carlos são sensacionais e lembram um pouco o estilo de compor do Titã Arnaldo Antunes, inclusive rola uma versão muito boa de um clássico  do rock nacional, a música “Televisão”. Mas se é pra falar em releitura, a melhor de todas é “Um Lugar do Caralho” de Júpiter Maçã, sem dúvida a melhor versão da música que eu já ouvi. Entre as canções da banda predominam as do recente disco “Agora é Agora, Depois é Depois”, destaque fica com “Sedução Barata” e “Armas de Videogame”. Duvido que alguém tenha saído do evento sem o refrão “Armas de Videogame demoram de carregar” martelando no juízo.

Banda Escola Pública

Em seguida veio a Escola Pública, apresentando seu primeiro disco para a plateia feirense. A festa seguiu em grande estilo, o ritmo agora era o samba tradicional da Escola Pública, samba de Moreira da Silva e Ederaldo Gentil, entre outras grandes referências que o grupo de Cachoeira/Feira de Santana tem. E aí o Botekim em peso sambou o “Consenso (samba do IBGE)”,  “Socorro, meu Deus”, “Samba Alá”, “Samba do Novato”, entre outras canções que completam o disco do grupo.  Com pouco mais de 2 anos de formada, a banda já se consolidou na cena independente baiana com shows pela capital e interior, um videoclipe premiado e agora com ótimo CD na bagagem. E novos passos estão sendo preparados. Sem dúvida iremos ouvir muito ainda sobre a Escola Pública.

Uyatã Rayra e a Ira de Rá

O show da Escola Pública acabou, mas o público não arredou o pé do Botekim, ainda faltava a noite ficar completa com a apresentação de Uyatã Rayra e a Ira de Rá, uma das principais promessas da nossa música. E a única coisa que podemos esperar de um show da Ira de Rá é alguma surpresa. E não foi diferente nessa ocasião, claro. Já que a noite era de lançamento do disco da Escola Pública a banda subiu ao palco usando uniforme de escolas municipais da cidade e transformaram o lugar numa sala de aula com direito a chamada e bolinhas de papel. Sala de aula também com direito a aprendizado e bom conteúdo, afinal, estavam homenageando uma Escola Pública de qualidade. E o show seguiu com o público aprendendo de primeira cada lição e repetindo em coro canções como “Amendoim”, “Princesa Comercial”, e uma grande homenagem ao nosso trovador urbano de Feira, o velho Pisa, com a música “Pimenta Malagueta”, cantada em peso pelo público e que ganhou um belíssimo arranjo de violino. A propósito, estas foram outras novidades no show, as participações de Don Carlos Furtado no violino e de Bel da Bonita na percussão incluindo novos sotaques africanos na música de Uyatã Rayra. Um show inteiro não foi suficiente para matar a vontade do público e a banda se despediu sob o pedido de “mais um”, que foi atendido com a promessa de novos shows que virão, para a nossa alegria!

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Homenagem ao rock fez julho ferver

O mês do rock foi intenso, foram três datas planejadas pelo Feira Coletivo com muito carinho que público e bandas não vão esquecer. A ideia foi homenagear o nosso querido rock’n’roll durante todo o mês de julho em clima de aquecimento para o Feira Noise Festival 2012, já que esse é um dos principais estilos musicais dentro do diversificado leque de atrações que o evento trás para a cidade.
O primeiro Fervura Feira Noise aconteceu no dia 1° de julho, com a banda feirense Gaiola de Vidro, que tem um trabalho calcado no rock dos anos 80. O objetivo do grupo é trazer para o público um trabalho autoral, por isso, mesmo tendo o repertório ainda carregado de covers, já trabalham algumas composições e fizeram uma ótima apresentação mostrando a coesão adquirida com a grande quantidade de shows que tem feito na cidade. Já a Bestiário – sem dúvida, uma das melhores representantes do som pesado na Bahia na atualidade – veio de Salvador para mostrar seu rock cantado em português e com grande influência do thrash metal, as faixas do excelente álbum lançado em 2011 deram o ritmo do show.

Quem fechou a primeira noite foi a Calistoga, banda potiguar que estava em turnê pelo Brasil divulgando seu mais recente álbum. A banda fez uma apresentação impecável mostrando que estava pronta para a grande sequência de shows que ainda iriam fazer ao longo da turnê.

A segunda noite de Fervura ocorreu no dia 22 de julho e contou com a presença de 3 pedradas punk/hardcore. A noite começou com um gigante do rock baiano, a Pastel de Miolos, com mais de 15 anos de estrada fazendo punk rock /HC como poucos no Brasil – cheio de energia e perfeição, é isso mesmo, perfeição. Recentemente, a Pastel de Miolos lançou dois álbuns que são referência no Punk/HC nacional pela qualidade dos registros e, principalmente, pela qualidade das músicas, o “Ciranda” e o “Da escravidão ao Salário Mínimo”, e foram eles os predominantes no show, que teve como ponto alto a balada punk “Eu não quero ser o que você quer”, acompanhada em peso pelo público no Botekin. A noite seguiu com os também veteranos da carioca Jason, uma das bandas mais influentes do hardcore nacional e que estava em tour pelo Nordeste. A Jason vive uma nova fase com albúm recém-lançado “Obtuso”, que traz novos elementos para a música do grupo, o show teve clássicos como “A imagem é tudo, sua cabeça não tem nada” e, claro, músicas do novo disco, que já não se trata do hardcore puro e direto de meia década atrás. Mas toda essa mudança só fez do show do Jason no Fervura mais intenso e capaz de reunir novos e antigos fãs da banda.

Quem encerrou a noite do segundo Fervura foi a feirense Violência Suburbana, a banda era a mais nova da grade do evento, mas já tem no currículo shows por diversos estados brasileiros e eventos importantes da cena punk brasileira. Quem não conhecia o som da VS saiu extremamente satisfeito com o show que não deixou a desejar em nada, embalado por canções próprias e clássicos do Punk Rock Nacional, provando que a banda pode ser nova, mas se for comprometida com o trabalho, os resultados serão positivos sempre.

Na semana seguinte fizemos o último Fervura da série que comemorava o mês do rock, uma data com grade bem diversificada para mostrar ao público como o rock também tem uma dinâmica magnífica. Foi especial demais, tivemos um público recorde com cerca de 400 pessoas que começaram a noite com uma das melhores bandas da atualidade em Feira de Santana, a Tangerina Jones, que levou seu som com influências do rock clássico e nomes do folk como Neil Young e Bob Dylan. A banda fez o melhor show desde que iniciou suas atividades ano passado ainda como “O Insuportável Hebert e a Inigualável Banda”. No repertório, algumas canções novas como “Crapton” e “Zorro Blues” e outras que já são mais conhecidas do público como “Pretty Funky” e “Álcool e Gasolina” – esta última é uma das melhores músicas que ouvi nos últimos anos, melodia doce e refrão pegajoso que fica semanas na memória.

Tangerina Jones


Quem deu seguimento à noite foi a soteropolitana Scambo, que, pela segunda vez em Feira, fez um show redondo. No repertório, semelhante ao da apresentação anterior, não faltaram as releituras que já viraram marca da banda como “Ocê i Eu” de Gonzaguinha, “Carcará” de João do Vale e “Muito Romântico” de Caetano Veloso, além dos hits da banda “Amor de Graça” e “A Janela”.

Uyatã Rayra e a Ira de Rá

A noite seguia num clima maravilhoso e a última atração do Fervura se aprontava no palco, era o segundo show de uma das atrações mais aguardadas, Uyatã Rayra & a Ira de Rá. Muita expectativa havia em torno desse show e ninguém que ficou até 1h30 da manhã para ver o mais novo nome da música feirense se decepcionou, ou seja, quase todo público que iniciou a noite no Botekim ficou para ver o show sem dúvida inesquecível de uma das principais promessas da nossa música. A banda tem 6 meses de existência e tudo que eles prepararam foi novidade para o público presente, a não ser a canção “Princesa Comercial”, finalista no festival Vozes da Terra e já velha conhecida de quem acompanha o trabalho do cantor e compositor Uyatã Rayra (que ouso dizer é um dos melhores compositores do Brasil na atualidade e que ainda não teve a devida oportunidade de mostrar seu trabalho).

O Fervura definitivamente nos aqueceu e deixou grande expectativa para o Feira Noise Festival que vem aí com sua 4ª edição. Foi encerrado o ciclo de Fervuras de Julho, mas Feira de Santana segue com uma produção musical cada vez mais efervescente, fato que só não é percebido por quem não quer mesmo dar atenção a este novo momento.

Por Joilson Santos

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Paulo Akenaton – Paixão indisciplinada pela música

Paulo Akenaton é músico e compositor feirense, com pouco mais de 10 anos de carreira, três discos na bagagem, diversos projetos e um histórico recheado de vitórias em festivais de música pelo estado.  Confira a entrevista e conheça um pouco mais sobre este talentoso artista feirense.

Paulo, como se deu essa sua relação com a música? Você vem de uma família de músicos?

Nunca estudei música nos moldes tradicionais e com a disciplina requerida, embora eu não saiba se esse aspecto contribuiu ou negativizou as canções que permeiam minha caminhada. Então às vezes me sinto desconfortável em ser apontado como músico, eu gosto do termo artista, porque esse carrega uma liberdade sem uma obrigatoriedade didática e tem um comportamento mais assimilado em sua expressão natural da pessoa desempenhar umas das tantas atividades e se corresponder em sua identidade artística; Até se diz que todo baiano já estreia quando nasce. Lembro desde criança que sempre numa brincadeira dessas que surgiam de nosso imaginário criativo lúdico infantil, eu quase sempre estava de porte de um pedaço de madeira, cabo de vassoura, então ficava dublando um violão, já daquele tempo suscitando o desejo de aprender o instrumento ou batucando em latas, mesas, entre outros. Aíassim em casa tocava um LP chamado À Luz da Oração 2, uma coletânea gravada por uma orquestra de câmara brasileira de clássicos eruditos como Berceuse, O cisne, Sonho de Amor…  Aquilo impactou minha alma, nessa época quis ser, em segredo um pianista, mas a professora da vizinhança que tocava piano e flauta doce desistiu de me ensinar já na primeira aula por minha intempestividade. Apareceu em casa um teclado de ritmo. Comecei descobrindo a dinâmica do instrumento de maneira autodidata, ia bem, conseguindo harmonizar, solar, dia traquinando, tive a brilhante ideia de ligar o teclado que era de 12V diretamente na corrente 110V, aquilo deu um pipoco, já era! Interrompi uma assimilação que poderia estar usando com muita eficiência hoje. Lembro que cheguei à casa de Gaia, e tava tocando um LP lá, era o Refazenda de Gil, fui em casa correndo pegar uma fita cassete pra gravar esse disco, então eu passei quase uns seis meses ouvindo só esse trabalho e me deleitava. Depois houve aqui em Feira, em 1985 no Amélio Amorim, um show do Gilberto Gil, “Gil in concert”, uma apresentação voz/violão. Ele fez obviamente, uma apresentação impecável e emocionante, o primeiro show que vi na vida, foi nesse dia… “Um compositor me disse: Amarra o teu arado a uma estrela, que ai tu serás, o lavrador louco dos ares, o camponês solto no céu, e quanto mais longe da terra, um tanto mais longe de Deus…” com quase 15 anos que consegui comprar um violão usado e me debrucei sobre ele com muita paixão e indisciplina. Haja revistinha de cifra nas bancas.


Desde 2001 que você vem participando de festivais e ganhando vários, e já conta com três discos nessa sua trajetória. Qual o balanço que você faz destes já 11 anos de carreira? O que falta realizar?

Oficializo o início de minha carreira artística em 2001 por conta de a primeira vez me inscrever e vencer um festival universitário, realizado pela UNEB – CAMPUS XIV, com a canção Bem-que-se quer, a mesma que iniciei minha trajetória pelo Vozes da Terra em 2003, mas nessa ocasião, assim como nas edições de 2004, 2006 e 2008, participando do Vozes seis vezes, fui à final duas, 2007 e 2011, conquistando a primeira colocação. Em relação 2007 participei com um grupo muito especial em minha trajetória, sendo eles Gabriel Ferreira (percussão) Silvério Duque (clarinete e co-arranjador) Karla Dias que interpretou infalivelmente a canção que fiz a partir de um soneto de Nívia Maria Vasconcellos, quem declamou ao vivo na apresentação. Ano passado corrigi essa defasagem para comigo, objetivei vencer o evento com uma canção minha e por mim interpretada.

O balanço faço assim, começo a ter mais aceitação e paciência comigo, com as coisas, percebendo que minha inconstância interrompe um possível trabalho. Então, se precisa ter cuidado com esse aspecto, senão você auto-sabota sua bio composição artística.  Por isso. penso que ainda falto realizar o intento principal, o de tocar nos corações da massa, chegar de maneira plena e verdadeira às pessoas, persigo essa canção. Então me falta tudo ainda, minha própria realização, minha busca inveterada nesse momento se faz em libertar minhas próprias amarras, só dessa maneira acalentarei o outro.

Dos três álbuns que você gravou, Alma Gandhi (2003), Nino (2005) e o mais recente Independente (2010), qual você tem um apreço especial?

Bem, o Alma Gandhi surgiu de uma ideia grupal de gravar uma espécie de trilha sonora para uma confraternização de jovens espíritas da Casa de Educação Allan Kardec, que acontece anualmente, então fiz esse CD conjuntamente, com varias participações vocais e parcerias de letra. Em 2005, o Nino, esse trabalho, muito difícil de realizar completamente, uma coletânea de algumas composições minhas e parcerias gravado por, Natan que tinha na época um Studio na Nata musical. Foi nessa época que conheci o grandioso Dadi de Oliveira que me apresentou à cantora/compositora Manu Schuartz que escolheu duas canções para integrar um CD dela.

O Independente (2010) foi um trabalho mais fácil por ser todo em voz e violão, e conta com a percussão de Tonico Freitas e solo de Dadi de Oliveira em duas faixas. Um trabalho de caráter aleatório. São filhos aí crescidinhos já. No momento direciono meu apreço para um trabalho que estou a findar onde as canções convergem para uma só temática, o CD Guirlanda, previsto apresentar ao público ainda esse ano de 2012.

Você já vem atuando com música em Feira de Santana há mais de uma década. Quais os principais desafios de se trabalhar neste setor em Feira de Santana?

Se projetar artisticamente, em um ideal, e partir a conquistar aliados feito um guerreiro eremita, sem “medinho”; Manter, mesmo sem sucesso, a todo o momento a cabeça erguida, trabalhar muito sem às vezes vislumbrar um retorno de espécie ambicionada, voltar à cabeça uma Fé que nos foge vez em quando; Lidar com suas contas a pagar que não cessam, e sua dignidade a todo tempo ameaçada e ultrajada. Ter em mente a filosofia Crística salientando de que ninguém é profeta em sua própria morada. Sinto respeitado aqui e agradeço aos que me direcionam essa energia, de coração. Agora desafio surge para ser superado, e acredito nas adversidades para nosso crescimento.

Muitos artistas feirenses reclamam da falta de política cultural na cidade e certo descaso com a produção local. Você concorda? O que você acha que é preciso mudar de imediato? O que seria bom que o governo municipal fizesse para melhorar a cena cultural de nossa cidade?

Penso que, primariamente, a municipalidade tem que cumprir seu papel perante qualquer setor, para que tenhamos uma cidade feliz gerando um convívio propício ao abraço das pessoas à nossa arte. Já se encontra em vigência a inclusão do ensino de música nas escolas, até que enfim, aí que se deve investir, na criança e jovens, a base para darmos um basta em nossa própria mediocridade. Porque também um programa para assistir a classe artística tem que ser pensado na filosofia de dar a vara, e não o peixe, para não atrairmos os pretensiosos. Ano passado participei juntamente ao MM de uma oficina sugestiva a projetos de cunho cultural artístico e sugeri um projeto como uma espécie de roteiro cultural, funcionaria assim: Demarcando e revitalizando estabelecimentos culturais, por exemplo: O Casarão Olhos d’água, o Mercado de Arte, O MAC, o Centro de Abastecimento, e, desses locais, torná-los também espaços de apresentação para produção local; Outra ideia simples ao mesmo tempo sensacional sugestionada por minha mãe, de se criar a Praça da Cultura da mesma forma que existe a Praça de Alimentação, dessa forma ir até o povo, desmistificando qualquer espécie de elitismo e não corroborando com a falsa ideia de que a gente popular não gosta de coisa de boa qualidade.

Você vem de uma vitória recente no Festival Vozes da Terra 2011, onde foi premiado com a melhor canção e melhor performance, e no mês de março foi lançado a coletânea com os 14 melhores colocados do Festival e onde tem obviamente a canção Mandacaru que ganhou o prêmio. Como tem sido a divulgação deste material, as rádios locais têm aberto espaço para execução desse material?

Mas uma pergunta bastante relevante nobre, pelo seguinte, essa execução é inexistente, nunca ouvi nem dizer que uma música vencedora ou finalista de qualquer edição desse festival tocasse sequer uma vez, em alguma rádio daqui, pode até ter acontecido, mas de maneira bem aleatória.  Agora quero fazer a ressalva, para não ser ingrato a Elsimar Pondé e todo seu pessoal, e a Agnaldo Silva que me convidaram logo depois ao premio para uma entrevista e execução da canção ao vivo na rádio.

Em maio você participa do Encontro de Compositores de Feira de Santana, fale-nos da suas expectativas com o evento.

Nossa, rapaz, responsabilidade… Eu já estava mesmo sentindo essa lacuna em relação a esse evento de notoriedade eficaz e com uma iniciativa tão bonita, compor a bancada com compositores que admiro e que são apaixonados como eu, em tecer melodias, acordes e ritmo em versos da própria vida. Hoje me conformo, satisfeito pelo convite num momento bastante propício. Desde então venho trabalhando muito para corresponder a altura do evento, um pouco recluso em casa, rebuscando canções, re-harmonizando e ensaiando-as bastante, vou até tocar a primeira que fiz e a mais atual por exemplo.  Minhas expectativas são as melhores possíveis, com certeza será um grande encontro… Eita, esse termo deve estar patenteado pelos medalhões consagrados do estado Pernambucano (risos).

 Paulo Akenaton, gostaria de agradecer pela entrevista, o  espaço está aberto para considerações finais.

Primeiramente, agradecer pelo espaço concedido e aos leitores dessa entrevista. Sinceramente eu já sinto um panorama bem melhor em relação ao nosso movimento artístico daqui, essas agremiações coletivas já viabilizam certa efervescência, embora assim, atento que essa homogeneização, que essas redes sociais possibilitam através do advento da internet em cultura global, também nos apresenta uma radiografia do descaso de uma sociedade em relação à nossa cultura e a absorção involuntária de elementos descartáveis em nossa gente. Ainda é muito pouco mesmo o acesso da população de Feira às suas manifestações culturais, precisamos nos aceitar, extinguir nossa sedução por qualquer coisa que tenha um selo do outro lado, a má vontade. Já estão surgindo devagarzinho ambientes onde se podem apresentar uma banda local, isso é muito já, comparado há dois anos, que era impossível.  O que nos falta é encontrar uma maneira de trazer aos espetáculos independentes o público, geralmente muito escasso nesse tipo de evento. Precisamos desse feedback, só dessa maneira se alimenta um sistema cultural, seja em artes plásticas e visuais, expressão corporal, teatro, literatura e música. Pensar todos nós: Qual mesmo o referencial de cultura artística nativa estamos engendrando em nossa geração?

Confira a canção de Paulo Akenaton vencedora da Edição 2011 do Festival Vozes da Terra:

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Nunca Vi Ninguém Chutar Cachorro Morto!

Toda mudança causa estranheza, medo, dúvidas e resistência. Este contra movimento é comum, esperado e, de certa forma, até natural. O que me deixa perplexo é artistas assumirem a postura de prefiro ser sacaneado e explorado pelo mercado cultural corporativo das grandes gravadoras/produtoras do que, gerenciarem as suas próprias carreiras, de construírem ‘rotas alternativas’ ao marasmo imposto pela grande mídia aos artistas distantes das ‘Mecas culturais’ que ao longo de décadas se alternaram no cenário nacional. O que vemos por aí são zumbis, são artistas que insistem em discordar com o que a realidade expõe todos os dias a estes, vou aproveitar da visibilidade do debate promovido/protagonizado por China – (?) até agora não consigo entender o motivo de tanta polêmica, deixem o cara discordar, melhor, a pergunta central que deve ser feita é a seguinte: Brasis, por favor, me respondam, qualquer ponto, produtor ou cidade – quem hoje conseguiria organizar um evento e colocar mais de oitenta pessoas numa noite qualquer do fim-de-semana com o artista incomodado com o pagamento ou não de cachês? Também sou artista/músico/produtor e tenho a compreensão de que carreira sólida é carreira bem gerenciada, percebo claramente que existem possibilidades de faturamento numa circulação que ultrapassam a barreira dos cachês (barreiras sim, pois, quando penso o quanto a cobrança/pagamento de cachê inviabilizam a circulação de artistas independentes, percebo-o não como meio de sobrevivência e sim, na maioria das vezes, como veículo de estagnação) uma banda que circule com um Show consistente vende CD’s, camisetas, chaveiros, adesivos e toda sorte de merchandising transformando-se estes, num verdadeiro termômetro da sua carreira e potencializando, mercadologicamente falando, seu trabalho.
Sinto muito pelos órfãos do mercado musical brasileiro, mas, a morte deste é indiferente para mim que nunca usufruiu da sua fortuna e proteção mas, que por outro lado, disputo em pé de igualdade o espaço deixado com os “Ex-Famosos Quens?”. É infinita a quantidade de artistas que vivem, como os senhores dos bancos de praça das inúmeras cidades interioranas Brasil afora, das glorias dum passado recente e que já se faz distante, e que os bons ventos os levem… Nesta reconfiguração cultural brasileira a música não tem forma, mas, sem a menor sombra de dúvidas possui uma estética bem definida:  ela é independente e só se faz possível de forma integrada e colaborativa, deixou de ser mero entretenimento passando a ser política cultural bem definida, chamando o Estado, bem como, aos gestores públicos de cultura à responsabilidade com os recursos coletivos. Não cabe na nova estética investimentos públicos em megas-cachês em detrimento de pequenas e médias iniciativas que fomentam a cultura nos diversos Brasis (é uma pena que muitos artistas só conheçam a realidade daquele Brasil radicado no seu umbigo), é fácil argumentar quando a única preocupação é a sua carreira, outra coisa, bastante diferente, diga-se de passagem, é pensar culturalmente a realidade de um país, é integrar e articular um Continente… Falo aqui em nome da minha carreira e de como esta pode estar a serviço da construção de uma sociedade mais justa e ética, não falo em nome de grandes corporações, nem mesmo se fosse pago por estas, parafraseando Paulo Freire: o professor [artista] é antes de tudo um ser político e o ato de educar [artístico]se faz um ato político, o professor [artista] que assim não se vê, está politicamente à serviço de alguém, seja este, as editoras [gravadoras], os donos dos estabelecimentos de ensino [casas de Show], ou do estado burguês e seus grandes cachês que compram consciências cotidianamente.

Outra coisa, o enredo que mais se repete na literatura e na vida é o dos herdeiros que detonam a herança recebida e ofendem e decepcionam a sua ascendência e na cultura não é diferente, muito se fala na herança manguebeat de Recife, mas, pouco se faz, para não ser mal compreendido vou me tornar mais acessível… Há muito tempo que a atitude manguebeat foi esquecida pelos que se dizem herdeiros, engraçado escutar falar em terceira geração manguebeat, onde no Manifesto cachê estava à frente da estética, ou ainda, porque quando toda indústria e mídia apostava na saída de Chico Science do Nação Zumbi, depois do lançamento do surpreendente “da lama ao Caos” e, como bem relatou Fred Zero Quatro: Quando toda a crítica brasileira caiu de quatro sob o impacto avassalador do “Da Lama ao Caos”, houve no Recife quem apostasse que Chico despontaria em carreira solo já no segundo disco. Argumentavam que, por um lado Chico tinha luz própria de sobra e por outro a fórmula do Nação Zumbi não renderia mais nada interessante, pois já teria se esgotado. Eu e Renato torcemos para que acontecesse o contrário, para que Chico não se rendesse à vaidade pessoal e injetasse todo gás possível no fortalecimento da banda. Ele não decepcionou, mostrou que não era nem um pouco ingênuo ou deslumbrado e que sabia muito bem do que precisava para se manter no topo. O resultado foi o brilhante “Afrociberdelia”, um trabalho coletivo – com Lúcio mais ativo do que nunca do que nunca na produção”. Ora, queridos e queridas agentes culturais povo Fora-do-Eixo, o que fica evidente é que alguns artistas ainda não se deram conta de que não estão falando em seu nome nem tampouco defendendo seus interesses, e sim, em nome daqueles que mais uma vez tentam descaracterizar/desacreditar aquilo que para eles é inconcebível/inacreditável numa sociedade, como eles tentam construir/reproduzir, individualista, egoísta e excludente, a ação transformadora da arte que emerge independente Brasis afora.
Aqui no meu quinhão de Brasil tem um ditado antigo que diz: Nunca vi ninguém chutar cachorro morto. Ou seja, companheiros e companheiras Fora do Eixo, estamos no caminho certo, artistas, produtores e produtoras, parceiros e parceiras a importância dos que nos opõem é a qualificação, reavaliação e reafirmação dos nossos valores e princípios, o único risco de transitar em águas desconhecidas é se deixar seduzir pelos diversos cantos que podem possuir uma sereia.

por Paulo de Tarso, Feira Coletivo Cultural/Banda Clube de Patifes – Feira de Santana/Ba